PALESTRA NA 5ª MOSTRA REGIONAL DE PRÁTICAS EM PSICOLOGIA
21, 22 E 23 DE JULHO DE 2011



No dia 22 o nosso diretor cultural, Walfredo Gustavo, apresentou o trabalho "Automóveis como dispositivos de produção de uma história social" no evento realizado no campus Tijuca da Universidade Veiga de Almeida.

Eis o texto e slides preparados para a mostra:

O que apresento não é uma novidade. A Arqueologia estuda as sociedades passadas - em seus diversos aspectos - com base nos restos materiais por elas deixados, diferente da História, que estuda as sociedades através, basicamente, da documentação textual.Podemos conhecer uma cultura através de seus objetos e práticas. Quando estudamos uma cultura, ou práticas, passadas, o que resta, além de documentos, são os objetos, “fosseis sociais”, não só objetos no sentido comum, como também a arquitetura, a organização das cidades e tudo que foi deixado de modo material. Essa história dos e nos objetos é uma história dos modos de produção e consumo, é uma história política, uma história de como as relações sociais (da comunidade) se dão.

Semelhante a Foucault, acreditamos que não existem objetos naturais, mas práticas que constituem os objetos, práticas de poder, discursivas e de subjetivação. Tentamos cartografar o jogo de relações que formam os objetos-acontecimentos. O automóvel e suas variações raramente aparecem nesses estudos como objeto, sendo comum o estudo das conseqüências de seu uso. São poucos os que o analisaram fugindo da ótica do trânsito, cito alguns: o professor do Instituto de Letras da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Guilhermo Giucci, a professora de Comunicação e Marketing da UFBA Elaine Norberto , a economista e professora da UFAM Tatiana Schor, Claudia Barbosa Reis museóloga da Casa de Rui Barbosa e poucos outros.



Entre todos os objetos produzidos pelo Homem, o automóvel ocupa um lugar dos mais importantes, tendo alto valor de uso, imagem de poder e status, muita tecnologia agregada e movimentando somas altissimas de dinheiro. O automóvel, e não só ele, contém em si tanto a apropriação do objeto (sua funcionalidade) quanto seu uso ostentatório, espetacular. A relação Homem/automóvel não se restringe ao uso, ele possui atributos de personalidade, de identidade pessoal , deixando de ser apenas um meio de transporte e se transformando num símbolo com vários significados, que são explorados tanto pela industria automobilística como por outras não associadas, ele é fetiche. É comum o marketing atribuir características intangíveis e inverificáveis, aos produtos. "O importante é viver um Alfa Romeo 2300" (1975), "A vida parece mais linda !" (Hudson 1941), "Quando o asteróide cair e a civilização desmoronar, você estará preparado" (Hummer 2008), "Este carro nunca vai deixar você falando sozinho" (VW 1971), "O dono da festa " (Willys 1963, todas do acervo do autor), são apenas alguns exemplos.


Estamos numa fase em que ainda não temos certeza se os automóveis precisam de uma metodologia específica, e por enquanto, para sobressair as forças sociais que o atravessam, os analisamos contrapondo nosso objeto de estudo com automóveis de diferentes épocas e regiões, evidenciando a cultura e política em que estão mergulhados. Vou citar dois exemplos que tem origem no mesmo fato histórico, a II Guerra Mundial, com conseqüências na Europa e Estados Unidos.

A Europa estava arrasada, as indústrias bélicas que sobreviveram aos bombardeios estavam sem encomendas, a população sem dinheiro e havia escassez de combustível e materiais estratégicos. Foi aí que surgiram os carros-bolhas, micro-carros na sua maioria ligados à industria aeronáutica: Heinkel, Messerschmitt, BMW... a medida que a economia foi se recuperando, os carros bolhas simplesmente deixaram de existir, bem como a maioria dos micro-carros.





Outro exemplo, o mais conhecido de todos, foi a Era do Jato. Os Estados Unidos e a União Soviética saíram da II Guerra disputando áreas de influência ao redor do mundo, o que resultou numa série de guerras iniciadas com a da Coréia no fim de 1949. Nessa época os aviões a jato, que foram desenvolvidos e utilizados durante a II Guerra, já não eram novidade e a corrida espacial estava no seu auge, com grandes esforços de ambos os lados. Em 1954 o Boeing 707 foi apresentado e em 1957 o Sputnik foi lançado. Buck Rogers estreava na televisão em 1950 e Flash Gordon em 1954, mesmo ano em que o brasileiro Capitão Sete ganhava super-poderes de um aliênigena, nos 60 surgiram os Perdidos no Espaço, Os Jetsons, National Kid, Thunderbirds e Ultraman.



Foi nesse clima que surgiu a Era do Jato, movimento de design americano nos anos 50 que influenciou não só a industria automotiva, como quase toda a estética de uma época, tendo estreito relacionamento com a Guerra Fria e a corrida espacial. Apesar de mais exagerada entre 1957 e 1959, começou no inicio dos anos 50 e se prolongou aos primeiros anos da década seguinte. A tecnologia ficava cada vez mais acessível aos lares comuns. Enlatados, aspiradores de pó, lavadoras de roupas, liquidificadores, televisões, uma infinidade de aparelhos elétricos com uma aparência "espacial" eram orgulhosamente ostentados pelas donas-de-casa. Os jornais e revistas também refletiam esse clima, com grandes reportagens sobre a conquista do espaço, o uso da energia nuclear e as disputas politicas entre URSS e EUA, uma fase que nas palavras de Valter Prieto Jr. foi “a época mais prolífica em criações devidas somente aos departamentos de Design das fábricas”.




Os veículos da Era do Jato não precisavam possuir tecnologia aeronáutica, como os freios à disco (durante décadas mais comuns na europa que nos Estados Unidos), técnicas de aplicação de finas chapas sobre estrutura tubular ou motores de liga mais leves, muitos realmente oriundo de empresas aeronáuticas (Rolls-Royce, Mercedes, BMW, Isota-Fraschini), como nos modelos europeus. A questão não era ser, mas parecer, e esse objetivo foi alcançado com uma aparência corpulenta, grades e para-choques agressivos e um tamanho que devia refletir a grandeza do país. Não é de espantar que os circuitos ovais e as arrancadas sejam competições tipicamente americanas, em que consumo, dirigibilidade e freios não são as características mais importantes, e sim a força bruta.

A Era do Jato, com seus exageros estéticos e mecânica arcaica, é uma privilegiada representante de sua época, cheia de avanços tecnológicos (a eletrônica se desenvolve a partir dos anos 50), mas também marcada pelo medo, com civis construindo abrigos anti-aéreos, um investimento maciço em pesquisa e produção de armamentos e um esforço em mostrar o comunismo como o mal a ser combatido.

Os veículos, e entre eles os automóveis, são um importante e esquecido dispositivo de análise das relações socio-culturais. Seus usos e status, a tecnologia empregada (motorização, periféricos, modos de produção, etc), o design e estilo (cores, feitios, adornos, etc) e seu impacto político (impacto da instalação da industria, planos de urbanismo, etc), tornam os automóveis um importante ponto de interseção das forças que atravessam uma sociedade. Essa variedade de especificidades contidas no automóvel também pode servir como facilitador da troca de informações e saberes entre os psicólogos sociais, museólogos, sociólogos, urbanistas, historiadores da moda e outros especialistas.




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